Estação de Trem Tamanduateí: 23:25 – Capítulo 1

         

          Cleber chegou à plataforma de embarque em direção ao Brás vinte minutos atrasado. Estava à fim dos 200 reais, mas não acreditava muito que os receberia. Se sentira idiota ao colar o pedaço de silvertape na sola do tênis. Mas o fez. Formara um quadrado com largura e altura iguais, logo à frente do calcanhar. Escrevera XXX na fita, de tamanho que a ocupassem por completo. Usara um canetão preto para quadro magnético. Conferiu o cartão que roubara no dia anterior sozinho no bolso esquerdo de trás da calça. Estava do lado contrário à sua carteira e queria poder se livrar dele rapidamente caso visse algum policial ou segurança. Decorara duas frases que recebera no WhatsApp: “O sangue escuro brota no asfalto. A bolsa caída ao lado contém um cilindro de rapadura de 500 gramas.” Tirando o atraso, seguira todas as ordens que recebera anomimamente.

          Sentou-se no primeiro conjunto de bancos após a escada rolante. Havia um casal no final da plataforma conversando e uma mulher lendo um livro, na outra ponta. Colocou as mãos nos bolsos da jaqueta e expirou enquanto curvava os ombros. Notou que dava para ver a placa do Central Plaza Shopping quase de frente. Era exatamente como lera. Mas ainda achava que tinha sido feito de idiota por alguém testando um novo trote.

          – No máximo, gastei o dinheiro da passagem. E ganhei duas noites sem ver tv e ouvir minha mãe me chamar de inútil.

          Olhou a escada rolante trazendo mais degraus vazios. “Como eu vou ver a sola do sapato de alguém?”Se levantou andou lentamente de uma ponta à outra da plataforma. Talvez se descesse do lado contrário aos trilhos, onde havia algum mato e a cerca que separava a estação dos galpões vazios e abandonados, pudesse ver as solas das pessoas que passassem. Mas certamente seria visto pelas câmeras e em poucos minutos dois seguranças o abordariam e colocariam para fora, com a proibição verbal de não usar a mesma plataforma nas próximas 24 horas. Não teria tempo para alcançar a próxima estação antes que ela fechasse e demoraria mais de 5 horas caminhando até sua casa. Era melhor sentar novamente no banco e esperar.

          Contou de forma despercebida quantas pessoas estavam na plataforma em frente, que dava acesso ao trem para Rio Grande da Serra. Quatro caras e três garotas. Uma delas estava de jeans justo e salto alto. Estava de costas para ele, olhando o mapa das estações. Tinha o cabelo preso em rabo de cavalo baixo. “Eu queria ver o rosto da dona dessa bunda…” Ela não se virava para que ele pudesse ver. “Deixa. Já decorei essa rabiola pra lembrar mais tarde…”

          Olhou para um rapaz loiro mais novo que ele sentado próximo à garota. Quando notou que este o observava, desviou o olhar. “Vai que esse merda tá afim da rabuda também…”

          O trem para o Brás chegou. Cleber viu duas pessoas desembarcarem, mas seguiram para as escadas. As três pessoas de sua plataforma embarcaram. Eram cinco minutos até a partida. Ele olhou para o relógio digital no pulso e resolveu aguardar mais quatro minutos. Era tudo uma pegadinha e ele decidira ir embora naquele trem mesmo.

          Ouviu os alto falantes escandalosamente anunciarem que aquele era o penúltimo trem em direção ao Brás. Ele se recostou e imaginou em que posição iria pegar a bunda que decorara na sua masturbação de antes de dormir. Deu um sorrisinho idiota sozinho e viu o garoto loiro através da janela. Seus olhares se cruzaram novamente. Ele desviou o olhar rapidamente e então olhou novamente. Ainda era observado pelo garoto. “Certeza que esse moleque é viado…”. Coçou uma orelha para disfarçar que estava incomodado e então relembrou como vira o garoto sentado: nas duas vezes que  prestara atenção, ele estava afundado no banco. Raciocionou que ele deveria estar com as pernas esticadas e os pés cruzados.

          Ergueu a cabeça e olhou para as solas do loirinho. Viu o cinza da fita. Havia algo marcado nela, mas não dava para ler o quê. Olhou nos olhos do garoto novamente. Agora entendera que o garoto olhava fixamente para ele. Escutou o sinal de fechar das portas. Se levantou e correu para descer. As portas pegaram uma ponta de sua jaqueta e ele a puxou meio desequilibrado. Enquanto o trem partia, lhe passou pela cabeça que o outro não teria como ter visto as solas de seus sapatos. Foi até os bancos novamente, se sentou, afundou-se de pernas esticadas e cruzou os pés. O trem sumiu e ele viu o garoto loiro na mesma posição. Se sentiu idiota por estar na mesma posição que ele. Cruzou os pés ao contrário. O outro se ajeitou no banco e deu de ombros impaciante. Sorriu por um momento e ficou sério novamente. Olhou para os dois lados e voltou a olhá-lo. “E aí?” era a interpretação de Cleber para os gestos dele.

          Sentiu o incômodo do silêncio e o suportou por alguns segundos. Fez um gesto de ‘vem cá’ para o loirinho. Este  fez que não com a cabeça e olhou para os lados. “Será que ele está vendo algum segurança?” Varreu visualmente a outra plataforma de ponta à ponta. Contou novamente sete pessoas, mas nenhum segurança. Viu que um casal conversava. O homem de costas para ele, ombro encostado em uma coluna. Viu que ele tinha um pé cruzado para trás e o agitava sem parar. Viu uma fita silvertape novamente. Estava claro que o homem agitava o sapato para ele ver.

          Olhou para o loirinho. Estava com a testa franzida e entortava um canto da boca. Olhou para a garota de rabo de cavalo. “É muito burra. Ainda não sabe onde está?!”

          Viu a garota erguer um dos saltos para trás e ajeitar sua tira com os dedos. Viu a fita em sua sola também. Conseguiu ver dois ‘X’ escritos nela.

          Ele se levantou. Notou que todos da outra plataforma o olharam e disfarçaram em seguida.

          “Parece que eu estou na plataforma errada…”

          Correu para a escada que subia. Antes de perder a outra plataforma de vista, viu o loirinho e a garota se entre olharem e balançarem as cabeças em desaprovação.

          Passou-lhe pela cabeça “Melhor os outros esperarem do que eu ter que esperar…”

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