Guilherme estava sentado abraçando os joelhos e olhando as ondas arrebentarem. Acabara de acender um cigarro de maconha. Depois de alguns segundos imóvel, deu uma longa baforada e olhou para o céu sem estrelas. “Maldito lugar pra fazer tempo ruim.” pensou sozinho. Quatro metros à sua frente, viu um pedaço de jeans despontando na areia. Fez sinal de negativo com a cabeça.
– Esse filho da puta não confia em mim?
Levantou-se, olhou ao redor. Tudo deserto. A pousada estava à menos de meio quilômetro, via apenas seu luminoso e a luz do estacionamento atrás. Sabiam que seu carro ainda não havia voltado.
Caminhou e chutou a areia, enterrando o tecido dos olhos da noite escura. Sentou-se bem sobre ela.
– Depois que ele cavar o terceiro buraco, eu aviso onde está – disse com um sorriso no canto dos lábios.
Após alguns minutos viu um ponto se formar n’água e depois sumir. Estava muito antes da formação das ondas. Olhou para o relógio. Pouco depois viu o ponto novamente, um pouco mais próximo. Olhou as horas novamente.
“Será que ele sabe que estou vendo? Pra quê alguém aguentaria três minutos sem respirar sem ser para se exibir?”
Mais dois minutos e meio e viu o ponto surgir e sumir novamente. E novamente após dois minutos.
“Não é pra se exibir. Ele aguenta mesmo. Maas está se cançando”.
Continuou contando o tempo que a cabeça demorava para voltar a surgir para respirar. Na onda seguinte ele surgiu por mais tempo, aproveitando a força do mar. Desapareceu mais uma vez e dessa vez voltou após coisa de um minuto. Agora já devia estar com os pés tocando o fundo e caminhando. Logo podia ver seus ombros também. Ele já decorara que desse ponto em diante, demorava 8 minutos para sair d’água. Era a praia que conhecia que mais demorava para se afundar.
– E aí, bicho? Tudo em ordem?
– Dei de cara com algum peixe grande na volta – respondeu Julio se sentando à sua direita. Passou a mão pela doleira presa à cintura e a empurrou para dentro da sunga – susto da porra!
– Tubarão?!
O outro balançou a cabeça.
– Um agulhão, talvez.
– Qual é esse?
– Tipo um marlim.
– Marlim, o peixe palhaço?!
Julio olhou para ele e em seguida para a bituca de maconha ao lado.
– Marlim?… – juntou os lábios e imitou um peixe enquanto olhava o mar. Coçou a barba e balançou a cabeça – você tá falando aquele do desenho? ‘Procurando Nemo’?
– Isso!
– O maior peixe palhaço que eu já vi tinha uns 10 centímetros de comprimento. Eu vi um peixe que tinha mais ou menos o seu tamanho. Só o nariz dele devia ter uns centímetros.
– Esse não é o Marlim…
– Puta que pariu! Você ainda tá no desenho? Um peixe espada passou na minha frente. Entendeu?
– Ahhh… esse eu não lembro o nome…
Julio bufou e segurou uma risada.
– Guilherme, sai de cima da minha calça.
– Ela não tá aqui não – respondeu este fazendo cara de surpresa – você enterrou ela lá na frente.
Julio enroscou um pé atrás do calcanhar esquerdo do outrou, puxou e com uma mão empurrou seu ombro. O rapaz virou uma meia cambalhota na areia e sujou o rosto com ela.
– Ow, que é isso?!
Depois de limpar o rosto, viu que o outro já arrancara as calças da areia e a calçava. Secou o peito com a camiseta que estava enrolada no meio dela e a vestiu. Pegou o celular do bolso e digitou 5 palavras usando apenas um polegar. O guardou novamente e conferiu seus outros itens nos bolsos. Carteira, carteira falsa, canivete e chaves. Lembrou de tirar o canivete tático da sunga e o prender ao cinto.
– Eu já andei daqui até o canal e nadei até o Guarujá duas vezes este ano. E uma vez vim de lá sem passar pelo canal. Eu nadei até não ver mais a praia, voltei e rumei pra cá. Acertei a pousada com menos de um quilômetro de erro.
O celular vibrou em seu bolso. Ele o pegou, leu algo e o guardou novamente.
– Já venderam outro quilo – olhou ao redor, soltou a doleira da cintura e a jogou para o companheiro. Este a pegou, abriu e viu dois cilindos de metal – amanhã eu busco mais dois cilindros, mas é melhor começarmos a ter ideias. Nossa operação está com pelo menos dois gargalos muito estreitos.
Guilherme fechou a doleira e viu um pino cair dela. Ele o pegou no ar.
– O que isso?
– Cinco gramas puras. Cortesia minha.
– A sua você já cheirou lá no fundo, né?
Julio o olhou enquanto se encaminhavam para a pensão.
– Esse meu trabalho nadando exige alguns sacrifícios. Se eu tivesse cheirado algo, estaria nadando em direção à Africa, provavelmente. Como se chamava a amiga do pai do Nemo mesmo?
– Dory? Ou Dolly?
– Também não lembro. E a tartaruga, como ela chamava?
– Não lembro – olhou para cima por um momento – ela tinha jeitão de que fumava maconha, não tinha?
– Tinha, Guilherme… tinha.